Motocicletas
Sempre fui aficcionado por motocicletas. Quero dizer, sempre fomos aficcionados por motocicletas, toda a minha família, desde o meu avô Oldemar, pai do meu pai.
Nunca consegui conhecê-lo muito bem, o meu avô, e as estórias que eu sei dele me foram contadas, tanto por meu pai quanto por meus tios, mas se quero contar de onde veio a nossa paixão por motocicletas, tenho de começar com ele.
Meu avô Oldemar foi de tudo. Desde caminhoneiro até dono de uma fábrica de refrigerantes. Ralou muito para criar os quatro filhos, e graças a Deus foi muito bem sucedido nisto. Moravam em uma cidadezinha chamada Nova Friburgo, que até hoje é adorável e fica em um vulcão extinto na região serrana do estado do Rio de Janeiro. Quando meu pai ainda nem tinha 10 anos, ele comprou uma Norton, uma motocicleta inglesa que foi o must dos anos 30 e 40. Meu pai contou-me que foi a primeira moto da cidade. Ela está lá, imortalizada em um retrato na parede do escritório do meu pai. Na foto estão meu avô, orgulhoso, meu pai e ela, a Norton. Por sinal, o ato de tirar fotos junto com os filhos em cima das motos acabou virando uma tradição familiar que começou lá em Nova Friburgo, em cima da velha Norton.
Lá pelos idos de 1979 meu pai arrumou uma Suzuki 450 vinho, linda. O motor dela tinha um ronco inconfundível, e ainda me vem à cabeça a imagem dela com aquele farol sealed-beam redondo enorme na frente, o nome Suzuki em dourado na lateral do tanque e os dois alforjes de couro atrás. Ela também está lá em uma foto na parede do escritório, ao lado da foto da Norton, Meu pai, eu e meu irmão, em cima da Suzuki. Nossa tradição.
Minha primeira moto foi uma Yamaha DT 180 que eu havia trocado por um Passat velho que minha tia Kátia tinha deixado comigo para eu vender, mas o carro era tão ruim que eu só consegui trocá-lo pela DT, pau a pau (e todos da família ainda disseram que eu fui um gênio, pra vocês terem idéia de como o carro era ruim). Fiquei com ela uns três meses até que um primo passou lá em casa quando eu viajei e passou a mão nela. À revelia. Na mão grande. Mas essa é outra história.
Depois dela me engracei com uma Honda CB 400 que meu pai tinha. Eu tinha acabado de vender um ESCORT 1.6 e estava me acabando pelos ônibus da vida quando consegui convencê-lo a me vender a CB. Que felicidade. Parecia Vital e sua moto. Alexandre e sua moto. Que união feliz.
Eu tenho uma teoria meio doida sobre motocicletas. Definitivamente elas não são um meio de transporte. Meios de transporte são carros, ônibus, caminhões. São fechados da chuva, confortáveis, silenciosos, bancos reclináveis, porta luvas, cd player, porta-malas, janelas. Carregam pessoas e objetos com tranqüilidade e segurança (dependendo do motorista, claro).
Moto não tem janela. Moto não tem distância. É você e a paisagem. E o vento. E a vida. Como bem disse Robert Pirsig no seu clássico “ZEN e a arte da manutenção de motocicletas”, quando você está em cima de uma moto você não vê a paisagem, você passa a fazer parte dela. As janelas dos meios de transporte são como uma televisão. Você vê o mundo através delas como um espectador, friamente, com uma certa distância. Em cima de uma moto você faz parte de tudo, não observa, participa. O asfalto não é uma visão à frente, mas à volta. Ele corre rápido bem abaixo dos seus pés, perto. Sem distância.
A moto é uma máquina. Uma máquina de velocidade. Um capricho do homem, uma invenção supérflua e ao mesmo tempo imprescindível. É perigosa, mas fascinante. A primeira motocicleta foi construída pelo alemão Gottlieb Daimler em 1885, e trafegava a uma velocidade média de 22 km/h. Imaginem que cara alucinado: pegou uma bicicleta, adaptou um motor a combustão e voilá! Lá estava ele passeando com os cabelos ao vento, sem lenço nem documento. O primeiro cidadão a fazer parte da paisagem em cima de uma motocicleta.
O tempo passou e hoje em dia temos motos que ultrapassam a barreira dos 300 km/h facilmente. Para uns é um absurdo, mas para quem gosta é um sonho bom de se sentir.
Eu continuo com a minha velha Honda CB 400, minha preta, como gosto de chamá-la, e sempre que posso a levo pra passear, pegar um vento no rosto, fazer parte da paisagem... E esperando que minha filha chegue na idade certa para que eu possa colocá-la em cima da minha moto, tirar uma foto bem orgulhoso, e pendurá-la na parede do escritório do meu pai, ao lado da Norton e da Suzuki. Eu e minha filha, ao lado do meu Pai, e meu avô Oldemar. Nossa tradição.

1 Comments:
Alex,tenho muito orgulho de vc,sei que faço parte de sua história e espero que tenha contribuido um pouco em sua formação...
Continue exercitando sua sensibilidade,sua alma é brilhante...amo vc.
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