Friday, March 24, 2006

Um Vazio

Ainda lembro bem a primeira vez que senti.
Eu estava com 13 anos, e tinha acabado de voltar das férias na casa da minha avó em Niterói, no Rio de Janeiro, última semana antes do início das aulas da 8° série. Era a primeira noite que passava de volta à minha casa em Nova Friburgo.
Acordei às 05:00 da manhã, espontaneamente, me sentindo estranhamente mal. Um frio estranho me corroia o estômago, não conseguia voltar a dormir por mais que tentasse. Aquele frio não deixava. Achei que era vontade de ir ao banheiro, então levantei e fui tirar a água do joelho, aproveitei para passar na geladeira, bebi um copo de água e voltei para a cama, aquela dor estranha ainda me corroendo.
Comecei a pensar nas férias e como haviam sido. Foram as maravilhosas férias de Verão do ano de 1987. Eu havia passado vitoriosamente da sétima para a oitava série, não tinha nem ficado em recuperação (o que era raro na minha vida escolar), e como prêmio, minha mãe havia me deixado ir passar o verão na casa da minha avó em Niterói. Como eu adorava poder passar algum tempo lá! Além de sempre ter sentido um amor incondicional pelos meus avós, Niterói era uma cidade grande, com shoppings, cinemas e praias (Nova Friburgo é uma cidade pequena e serrana), e o mais importante: o prédio em que meus avós moravam tinha dois blocos com 15 andares, quatro apartamentos por andar em cada bloco. Por ser tão grande, o playground era infestado de crianças. Amigos antigos, novos amigos, corridas de bicicleta, pique-esconde, pique-pega, e é claro, as meninas.
Elas já estavam começando a fazer parte da minha pequena lista de desejos. Nada de mais, na verdade. O que um garoto de 13 anos quer com uma garota? Ir ao cinema no shopping, andar de mãos dadas comendo pipoca, talvez um beijo roubado... Tudo muito saudável.
Tínhamos uma turma bem grande. Uns 10 garotos e mais 12 meninas. Íamos constantemente à praia juntos, à tarde encontrávamos no playground para ouvir música, brincar, bater papo, escrever nas agendas uns dos outros ou correr de bicicleta, e de vez em quando íamos todos passear nos shoppings que haviam por perto e aproveitávamos para ir ao cinema. Muito, muito divertido.
E bom, havia essa garota. Ela era diferente das outras meninas. Gostava de pegar onda com um “Morey Boogie”, falava com uma voz rouca bem fora dos padrões e vivia implicando comigo. Deixava-me sem graça sempre que podia. Os cabelos bem castanhos viviam presos em um rabo de cavalo, tinha olhos castanhos também, e usava óculos de vez em quando (eu adorava garotas de óculos).
Um dia, estávamos brincando de menina-pega-menino, e ela pulou em cima de mim para me pegar. Derrubou-me no chão e ficou por cima de mim, me encarando nos olhos e sorrindo. Fiquei completamente sem ar. Aqueles olhos me fascinavam, e já havia perdido algum tempo pensando em como queria tê-los tão perto, mas não conseguia imaginar que conseguiria. Ela riu pelo meu desajeito, e me beijou na boca. Meu coração parou. O mundo parou. Todo o som dos meninos brincando a minha volta parou. Só conseguia sentir aquela menina que tanto me fascinava em cima de mim beijando a minha boca. De repente ela riu, levantou e voltou a brincar, como se nada tivesse acontecido. Eu simplesmente não consegui me mover. “Quem essa menina pensa que é??” Ela me fascinava.
Ficamos mais algumas vezes naquelas férias antes que elas acabassem. Sempre trocando beijos escondidos e rindo muito. Ao som de “Uma Noite e meia” da Marina, ela me dominou completamente, sem que eu nem ao menos soubesse o que era isso. Foram as melhores férias da minha vida, até aquela época.
De volta à Friburgo, à minha cama, naquele fatídico dia. Olhei para o relógio e já eram 6:30, e eu ainda não havia conseguido voltar a dormir. Aquela dor desconhecida e voraz já estava me deixando com medo. Será alguma doença? Gases talvez? Só sabia que doía, e me gelava a própria alma.
Por volta das 7:00 da manhã ouvi minha mãe se levantar e ir para a cozinha preparar o café. O som me reconfortava, então me levantei, já que não adiantava ficar na cama se não estava conseguindo dormir, e fui para a cozinha também. Minha mãe me deu um beijo, Bom-dia, e pus a mesa para o café em silêncio, me sentando em seguida esperando o leite que estava esquentando no fogão.
De repente, não mais que de repente, aquele frio no estômago começou a subir rapidamente para o peito, se transformando em uma dor insuportável, sufocando toda e qualquer respiração. Meu medo aumentou para um terror e não conseguia me mexer nem falar. Do peito, ela foi subindo devagar para a garganta, dando aquele nó seco que precede as lágrimas. Não consegui segurar. Comecei a chorar copiosamente à mesa, para o total assombro de minha mãe, que automaticamente largou tudo e veio até mim.
“O que houve meu filho? Está sentindo alguma coisa?” Eu não conseguia falar. A dor aumentava e as lágrimas desciam cada vez mais. Ela perguntou uma vez mais: “ O que houve, meu filho?” Eu reuni todas as minhas forças, olhei para ela com os olhos mareados e disse: “Não sei”, foi a única coisa que consegui dizer... E não sabia mesmo. Minha mãe me abraçou. As lágrimas foram parando de cair aos poucos, os soluços, a dor que sufocava foi diminuindo, até que sobrou somente um pequeno frio na barriga. Este demorou alguns dias pra desaparecer, sem que eu até algum tempo atrás soubesse sequer o que havia acontecido.
Os sintomas e o próprio sentimento em si são bem conhecidos para mim hoje em dia. São tão familiares que sei até a ordem em que tomam conta de nosso corpo e nossos pensamentos. Tristeza, falta, saudade... É a dor que nos acomete quando da perda de uma pessoa amada. Essa dor tão lancinante que iguala a todos na face da terra. Homem, mulher, ricos, pobres, sãos, doentes. Todos agem e sentem igual quando perdem um grande amor. Seja como for. O sentimento de vazio no peito, o frio no estômago que gela até a alma, a saudade, a vontade constante de sentar no meio-fio e chorar até lavar o rosto... Meu Deus, como sei o que é isso...
Hoje, sentindo novamente a mesma coisa, passando novamente por este deserto vale de tristeza, penso em quanto tempo se passou desde que senti o vazio pela primeira vez, e em como nada mudou... Ainda sinto as mesmas coisas, a mesma dor, a mesma agonia. Se essa dor vai passar desta vez, eu ainda não sei. Nesta hora, tudo parece negro, sem luz, sem saída. O corpo não obedece, a mente não obedece, a alma negligencia toda e qualquer tentativa de reação, como se tivessem, de uma hora para outra, amputado um membro vital do meu corpo. Como Dostoievski uma vez disse, “Semelhante dor não quer consolações, repasta-se com a idéia de inextinguível.”
Se inventaram algum remédio para isso, algo que alivie esse sofrimento, eu não tenho a menor idéia. Mas se alguém souber ou já tenha ouvido falar de um, por favor, compre dez caixas para mim que eu pago. O preço que for.