Thursday, March 13, 2008

Escolha seu Caminho

Os caminhos que a vida nos leva...

Uma hora estamos ali, felizes, tranqüilos, com a vida fazendo todo o sentido. Nossos sonhos, objetivos imediatos, metas, desejos... Todos bem definidos e conquistados a duras penas. Do nada, parece que vem um turbilhão e tudo vai por terra. Um a um, sem que você tenha tempo de pensar. A vida seguiu seu curso mas te deixou ali, sozinho, para que você procure outro caminho, porque aquele não mais te apetece.

Tudo para.

Só a mente trabalha. Perguntas, perguntas, perguntas, respostas, respostas, respostas... Um balé constante de idéias, conceitos, verdades que agora não fazem mais sentido. Deixaram de ser. E você precisa achar seu caminho. Um novo caminho.

Me vem à cabeça imediatamente a imagem de Robert Johnson sentado à beira de uma encruzilhada em uma estrada deserta do Mississippi, com uma guitarra nas costas e esperando uma resposta até que ela dê as caras. Se ele esperou ou não, depois desta encruzilhada Robert Johnson se tornou o pai de um dos estilos musicais mais influentes do breve século XX: O Blues.

Alguns gostam de dizer que naquela encruzilhada ele fez um pacto com o diabo e dali se consagrou como gênio musical de um século. Eu prefiro acreditar que ele se sentou ali como um cachorro que cai de um caminhão de mudança no meio do nada, e pensou na sua vida... Na encruzilhada quatro caminhos. Quarto rotas. Quatro destinos. Bem, eu acredito piamente que ele escolheu ser o pai do Blues. Acredito que ele sabia exatamente aonde estava indo quando escolheu seu caminho naquela encruzilhada.

Agora, nada é livre de risco. Sempre existem os efeitos colaterais. Mesmo nos caminhos mais tranqüilos, alguns espinhos nos aguardam na beira da estrada. Robert Johnson foi envenenado em um boteco de quinta categoria, em Greenwood, Mississippi, em 1938. Morreu três dias depois.

Será que lá na encruzilhada, ao escolher seu novo caminho, ele sabia o que o esperava? Será que ele poderia saber que sua trilha o levaria inevitavelmente ao encontro com o fatídico copo de Whiskey envenenado? Não, ele não podia.

Ninguém pode prever aonde o caminho nos leva. Podemos escolhê-lo, trilhá-lo, mas não temos idéia dos efeitos colaterais que esta rota nos trará. Que novos valores e metas povoarão nosso desejo? O que mudará em nós? Cada caminho traz uma responsabilidade. Você está apto a aceitar as responsabilidades que sua nova rota o trará?

Perguntas, perguntas, perguntas, respostas, respostas, respostas... O eterno vai e vem da maré da vida. Tão delicioso, tão intrigante, tão perigoso... O que nos resta a fazer é tão somente seguir em frente. Escolher, encarar. Se reinventar diariamente adaptando-se automaticamente às curvas da estrada, mas sem perder a compostura. Aceitar que a vida tem de seguir o seu curso, seja lá qual ele for.

Como bem disse Robert Johnson:

“I went to the crossroads,

Fell down on my knees…”

Saturday, June 24, 2006

Motocicletas

Sempre fui aficcionado por motocicletas. Quero dizer, sempre fomos aficcionados por motocicletas, toda a minha família, desde o meu avô Oldemar, pai do meu pai.
Nunca consegui conhecê-lo muito bem, o meu avô, e as estórias que eu sei dele me foram contadas, tanto por meu pai quanto por meus tios, mas se quero contar de onde veio a nossa paixão por motocicletas, tenho de começar com ele.
Meu avô Oldemar foi de tudo. Desde caminhoneiro até dono de uma fábrica de refrigerantes. Ralou muito para criar os quatro filhos, e graças a Deus foi muito bem sucedido nisto. Moravam em uma cidadezinha chamada Nova Friburgo, que até hoje é adorável e fica em um vulcão extinto na região serrana do estado do Rio de Janeiro. Quando meu pai ainda nem tinha 10 anos, ele comprou uma Norton, uma motocicleta inglesa que foi o must dos anos 30 e 40. Meu pai contou-me que foi a primeira moto da cidade. Ela está lá, imortalizada em um retrato na parede do escritório do meu pai. Na foto estão meu avô, orgulhoso, meu pai e ela, a Norton. Por sinal, o ato de tirar fotos junto com os filhos em cima das motos acabou virando uma tradição familiar que começou lá em Nova Friburgo, em cima da velha Norton.
Lá pelos idos de 1979 meu pai arrumou uma Suzuki 450 vinho, linda. O motor dela tinha um ronco inconfundível, e ainda me vem à cabeça a imagem dela com aquele farol sealed-beam redondo enorme na frente, o nome Suzuki em dourado na lateral do tanque e os dois alforjes de couro atrás. Ela também está lá em uma foto na parede do escritório, ao lado da foto da Norton, Meu pai, eu e meu irmão, em cima da Suzuki. Nossa tradição.
Minha primeira moto foi uma Yamaha DT 180 que eu havia trocado por um Passat velho que minha tia Kátia tinha deixado comigo para eu vender, mas o carro era tão ruim que eu só consegui trocá-lo pela DT, pau a pau (e todos da família ainda disseram que eu fui um gênio, pra vocês terem idéia de como o carro era ruim). Fiquei com ela uns três meses até que um primo passou lá em casa quando eu viajei e passou a mão nela. À revelia. Na mão grande. Mas essa é outra história.
Depois dela me engracei com uma Honda CB 400 que meu pai tinha. Eu tinha acabado de vender um ESCORT 1.6 e estava me acabando pelos ônibus da vida quando consegui convencê-lo a me vender a CB. Que felicidade. Parecia Vital e sua moto. Alexandre e sua moto. Que união feliz.
Eu tenho uma teoria meio doida sobre motocicletas. Definitivamente elas não são um meio de transporte. Meios de transporte são carros, ônibus, caminhões. São fechados da chuva, confortáveis, silenciosos, bancos reclináveis, porta luvas, cd player, porta-malas, janelas. Carregam pessoas e objetos com tranqüilidade e segurança (dependendo do motorista, claro).
Moto não tem janela. Moto não tem distância. É você e a paisagem. E o vento. E a vida. Como bem disse Robert Pirsig no seu clássico “ZEN e a arte da manutenção de motocicletas”, quando você está em cima de uma moto você não vê a paisagem, você passa a fazer parte dela. As janelas dos meios de transporte são como uma televisão. Você vê o mundo através delas como um espectador, friamente, com uma certa distância. Em cima de uma moto você faz parte de tudo, não observa, participa. O asfalto não é uma visão à frente, mas à volta. Ele corre rápido bem abaixo dos seus pés, perto. Sem distância.
A moto é uma máquina. Uma máquina de velocidade. Um capricho do homem, uma invenção supérflua e ao mesmo tempo imprescindível. É perigosa, mas fascinante. A primeira motocicleta foi construída pelo alemão Gottlieb Daimler em 1885, e trafegava a uma velocidade média de 22 km/h. Imaginem que cara alucinado: pegou uma bicicleta, adaptou um motor a combustão e voilá! Lá estava ele passeando com os cabelos ao vento, sem lenço nem documento. O primeiro cidadão a fazer parte da paisagem em cima de uma motocicleta.
O tempo passou e hoje em dia temos motos que ultrapassam a barreira dos 300 km/h facilmente. Para uns é um absurdo, mas para quem gosta é um sonho bom de se sentir.
Eu continuo com a minha velha Honda CB 400, minha preta, como gosto de chamá-la, e sempre que posso a levo pra passear, pegar um vento no rosto, fazer parte da paisagem... E esperando que minha filha chegue na idade certa para que eu possa colocá-la em cima da minha moto, tirar uma foto bem orgulhoso, e pendurá-la na parede do escritório do meu pai, ao lado da Norton e da Suzuki. Eu e minha filha, ao lado do meu Pai, e meu avô Oldemar. Nossa tradição.

Friday, March 24, 2006

Um Vazio

Ainda lembro bem a primeira vez que senti.
Eu estava com 13 anos, e tinha acabado de voltar das férias na casa da minha avó em Niterói, no Rio de Janeiro, última semana antes do início das aulas da 8° série. Era a primeira noite que passava de volta à minha casa em Nova Friburgo.
Acordei às 05:00 da manhã, espontaneamente, me sentindo estranhamente mal. Um frio estranho me corroia o estômago, não conseguia voltar a dormir por mais que tentasse. Aquele frio não deixava. Achei que era vontade de ir ao banheiro, então levantei e fui tirar a água do joelho, aproveitei para passar na geladeira, bebi um copo de água e voltei para a cama, aquela dor estranha ainda me corroendo.
Comecei a pensar nas férias e como haviam sido. Foram as maravilhosas férias de Verão do ano de 1987. Eu havia passado vitoriosamente da sétima para a oitava série, não tinha nem ficado em recuperação (o que era raro na minha vida escolar), e como prêmio, minha mãe havia me deixado ir passar o verão na casa da minha avó em Niterói. Como eu adorava poder passar algum tempo lá! Além de sempre ter sentido um amor incondicional pelos meus avós, Niterói era uma cidade grande, com shoppings, cinemas e praias (Nova Friburgo é uma cidade pequena e serrana), e o mais importante: o prédio em que meus avós moravam tinha dois blocos com 15 andares, quatro apartamentos por andar em cada bloco. Por ser tão grande, o playground era infestado de crianças. Amigos antigos, novos amigos, corridas de bicicleta, pique-esconde, pique-pega, e é claro, as meninas.
Elas já estavam começando a fazer parte da minha pequena lista de desejos. Nada de mais, na verdade. O que um garoto de 13 anos quer com uma garota? Ir ao cinema no shopping, andar de mãos dadas comendo pipoca, talvez um beijo roubado... Tudo muito saudável.
Tínhamos uma turma bem grande. Uns 10 garotos e mais 12 meninas. Íamos constantemente à praia juntos, à tarde encontrávamos no playground para ouvir música, brincar, bater papo, escrever nas agendas uns dos outros ou correr de bicicleta, e de vez em quando íamos todos passear nos shoppings que haviam por perto e aproveitávamos para ir ao cinema. Muito, muito divertido.
E bom, havia essa garota. Ela era diferente das outras meninas. Gostava de pegar onda com um “Morey Boogie”, falava com uma voz rouca bem fora dos padrões e vivia implicando comigo. Deixava-me sem graça sempre que podia. Os cabelos bem castanhos viviam presos em um rabo de cavalo, tinha olhos castanhos também, e usava óculos de vez em quando (eu adorava garotas de óculos).
Um dia, estávamos brincando de menina-pega-menino, e ela pulou em cima de mim para me pegar. Derrubou-me no chão e ficou por cima de mim, me encarando nos olhos e sorrindo. Fiquei completamente sem ar. Aqueles olhos me fascinavam, e já havia perdido algum tempo pensando em como queria tê-los tão perto, mas não conseguia imaginar que conseguiria. Ela riu pelo meu desajeito, e me beijou na boca. Meu coração parou. O mundo parou. Todo o som dos meninos brincando a minha volta parou. Só conseguia sentir aquela menina que tanto me fascinava em cima de mim beijando a minha boca. De repente ela riu, levantou e voltou a brincar, como se nada tivesse acontecido. Eu simplesmente não consegui me mover. “Quem essa menina pensa que é??” Ela me fascinava.
Ficamos mais algumas vezes naquelas férias antes que elas acabassem. Sempre trocando beijos escondidos e rindo muito. Ao som de “Uma Noite e meia” da Marina, ela me dominou completamente, sem que eu nem ao menos soubesse o que era isso. Foram as melhores férias da minha vida, até aquela época.
De volta à Friburgo, à minha cama, naquele fatídico dia. Olhei para o relógio e já eram 6:30, e eu ainda não havia conseguido voltar a dormir. Aquela dor desconhecida e voraz já estava me deixando com medo. Será alguma doença? Gases talvez? Só sabia que doía, e me gelava a própria alma.
Por volta das 7:00 da manhã ouvi minha mãe se levantar e ir para a cozinha preparar o café. O som me reconfortava, então me levantei, já que não adiantava ficar na cama se não estava conseguindo dormir, e fui para a cozinha também. Minha mãe me deu um beijo, Bom-dia, e pus a mesa para o café em silêncio, me sentando em seguida esperando o leite que estava esquentando no fogão.
De repente, não mais que de repente, aquele frio no estômago começou a subir rapidamente para o peito, se transformando em uma dor insuportável, sufocando toda e qualquer respiração. Meu medo aumentou para um terror e não conseguia me mexer nem falar. Do peito, ela foi subindo devagar para a garganta, dando aquele nó seco que precede as lágrimas. Não consegui segurar. Comecei a chorar copiosamente à mesa, para o total assombro de minha mãe, que automaticamente largou tudo e veio até mim.
“O que houve meu filho? Está sentindo alguma coisa?” Eu não conseguia falar. A dor aumentava e as lágrimas desciam cada vez mais. Ela perguntou uma vez mais: “ O que houve, meu filho?” Eu reuni todas as minhas forças, olhei para ela com os olhos mareados e disse: “Não sei”, foi a única coisa que consegui dizer... E não sabia mesmo. Minha mãe me abraçou. As lágrimas foram parando de cair aos poucos, os soluços, a dor que sufocava foi diminuindo, até que sobrou somente um pequeno frio na barriga. Este demorou alguns dias pra desaparecer, sem que eu até algum tempo atrás soubesse sequer o que havia acontecido.
Os sintomas e o próprio sentimento em si são bem conhecidos para mim hoje em dia. São tão familiares que sei até a ordem em que tomam conta de nosso corpo e nossos pensamentos. Tristeza, falta, saudade... É a dor que nos acomete quando da perda de uma pessoa amada. Essa dor tão lancinante que iguala a todos na face da terra. Homem, mulher, ricos, pobres, sãos, doentes. Todos agem e sentem igual quando perdem um grande amor. Seja como for. O sentimento de vazio no peito, o frio no estômago que gela até a alma, a saudade, a vontade constante de sentar no meio-fio e chorar até lavar o rosto... Meu Deus, como sei o que é isso...
Hoje, sentindo novamente a mesma coisa, passando novamente por este deserto vale de tristeza, penso em quanto tempo se passou desde que senti o vazio pela primeira vez, e em como nada mudou... Ainda sinto as mesmas coisas, a mesma dor, a mesma agonia. Se essa dor vai passar desta vez, eu ainda não sei. Nesta hora, tudo parece negro, sem luz, sem saída. O corpo não obedece, a mente não obedece, a alma negligencia toda e qualquer tentativa de reação, como se tivessem, de uma hora para outra, amputado um membro vital do meu corpo. Como Dostoievski uma vez disse, “Semelhante dor não quer consolações, repasta-se com a idéia de inextinguível.”
Se inventaram algum remédio para isso, algo que alivie esse sofrimento, eu não tenho a menor idéia. Mas se alguém souber ou já tenha ouvido falar de um, por favor, compre dez caixas para mim que eu pago. O preço que for.